Mostrando postagens com marcador Poetando. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poetando. Mostrar todas as postagens

08 janeiro 2010

Cinco Sentidos


Quem me acorda é Eddie Vedder. Ele está dizendo que sente algo morno escorrendo por entre os olhos, mas que de alguma forma avista sua garota no meio da multidão apreciando a cena do acidente, como urubus. Uma guitarra de acordes fáceis, mas não o suficiente para que eu saiba repetir o som, acompanha a lamúria.

Já li em algum lugar que o primeiro dos nossos sentidos que volta a funcionar quando despertamos é o olfato. Ou o último, não me lembro. O fato é que no meu caso, ele é o segundo. Sinto um cheiro de cabelo lavado com condicionador. É incrível como o aroma é sinestesicamente úmido, sugerindo que o banho foi há apenas algumas horas. Inspiro mais forte, seguro o perfume dentro dos pulmões por alguns segundos para depois desperdiçá-lo nas minhas hemácias.

Em terceiro lugar, o tato. Um formigamento no ombro que se irradia para o braço esquerdo; algo pesado em cima dele. Assim como acontece num infarto. Minha coluna dói um pouco. Percebo que estou com as pernas dobradas, na posição de quem está deitado sobre um puff que o tempo achatou e preenchido inutilmente por sacolas plásticas.

Quarto, visão. Vejo o rosto de uma mulher. As pálpebras ainda escondendo seus olhos azuis. É ela quem está sobre o meu braço. As sobrancelhas são uma penugem de um loiro quase branco e o nariz está a menos de um milímetro do meu. Ela abre os olhos, me vê e sorri, desfazendo o M do lábio superior e deixando o filtro labial mais raso. Fechamos os olhos novamente.

Finalmente o paladar.



_____________________


Texto visceral escrito por meu primo Nilo no ano passado no Cloaca Pública

O cara que salvou José

Segue uma abordagem muito interessante do amigo Hugo do blog Metanoiado.

Primeiro vai o poema de Drummond, famosíssimo. Logo em seguida está a interpelação feita pelo Hugo, de muito bom gosto e muito interessante:


JOSÉ
Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?
E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora ?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José !
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !
José, pra onde ?

___________________


Vê agora, José?
A festa não acabara
Nem a luz apagara
Eram os teus olhos, José
Eram os teus olhos
Mas eles se abriram
O povo estava ai
O frio era em ti
Vê agora, José?
Voltou a utopia
E tudo começou
Incoerente é a vida, José
A mulher vai embora
E leva o carinho
O ódio se instala
E o discurso acaba
Olha o bonde da vida ai
Sobe nele
Sem teogonia, José
Teus deuses morreram
Precisa ir no bonde
Sobe nele, José
Sem cavalo preto que foge a galope
A fé é a pé
Marcha, José

hugo


E pra mim, a frase riquíssima: A fé é a pé!
Parabéns cara!

02 dezembro 2008

Gestão de vida

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas ese tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

Fernando Pessoa

Via Pava

29 agosto 2008

Tabacaria

Para encerrar a sexta:

"Fiz de mim o que não soube

E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime."



O poema se chama Tabacaria... procura no google que agora tô sem tempo de colocar o link.

24 julho 2008

Eles nos olham...


Presos na moldura do porta-retratos
os parentes mortos velam por mim -
eles têm pouco com que se ocupar.

Meus pais e os pais dos meus pais
se divertem com minha pouca paciência
para os fatos da vida -
sempre tão devagar.

Já já tudo passa, parecem dizer.
Aproveita.

Ivana Arruda Leite

Thanks to Pavablog

17 junho 2008

Inacabado

A distância, os quilómetros entre as possibilidades que não existiram, hipóteses abandonadas.

Os objetos que minhas mãos não tocaram, a conversa que não participei, os poemas que eu não li, os abraços que se afastaram.

A melhor noite, eu perdi.

O perfume que eu não apreciei, oportunidades desperdiçei, quando eu tinha que rir, mas eu silenciei.

Devia ter dito. Gritado. Eu podia correr, mas fiquei parado.

As explicações que ficaram por dizer, as músicas que não ouvi, uma voz que é só ausência.

O pôr-do-sol que eu não vi, o mar que não mergulhei, a onda que eu não surfei, a serenata que nunca foi ouvida.

As pessoas que nunca souberam que eu as amava.

A falta de uns segundos mais, uns milímetros mais de coragem, e talvez, poesia. O espaço de ar que ficou suspenso entre esses dois gestos adiados, mudo, pesado, dolorido...


Luciano Martini, no blog Mudando o mundo

Via Pavablog

10 junho 2008

Valha-me meu Drummont

Não, meu coração não é maior do que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo. Por isso me grito.
Por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias;
Preciso de todos.


Carlos Drummond de Andrade

Thanks to Pavablog

Valha-me meu São Quintana


Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
... a um belo poema - ainda que de Deus se aparte
-um belo poema sempre leva a Deus!


Mário Quintana

Thanks to Pava

28 abril 2008

Estou farto de semideuses

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa [via A Gruta] (Via Pavablog)

23 fevereiro 2008

O homem VERSUS O HOMEM

Abaixo, um dos melhores textos do Caio Fábio que já li.

Ser homem é carregar vida na morte e morte na vida.

Ser homem é existir preso ao tempo-espaço enquanto se sabe que nossas raízes estão para além das estrelas.

Ser homem é carregar a eternidade em um corpo de morte.

Ser homem é ter a semelhança de Deus em dessemelhança e paradoxo.

Ser homem é desenvolver a consciência entre os espinhos de instintos.

Ser homem é necessitar de amor enquanto não se sabe o que amor é.

Ser homem é gostar de muita coisa que mata.

Ser homem é resistir a muita coisa que salva.

Ser homem é viver dizendo que se ama o que não se abraça e que se odeia o que se carrega.

Ser homem é ser capaz da solidariedade que nem sempre sabe falar de perto.

Ser homem é frequentemente esquecer-se de quem se é enquanto se julga nos outros aquilo que em nós é abundante.

Ser homem é saber de Deus enquanto se existe em fuga.

Ser homem é mentira, é verdade; é vontade, é preguiça; é amor, é capricho; é divino, é diabo; é eterno, é fugaz; é vinho, é vinagre; é fel, é mel, é água, é fogo; é Adão, é João; é Caio — é herdeiro; é lacaio!

Ser Homem verdadeiro é ser o que o homem não é. Por isso ser Homem de verdade é ser em negação de si mesmo para se poder vir a ser para além de nós mesmos!

Pense nisso!

Caio

20/02/08

Lago Norte

Brasília

DF


Aprendi a ser um admirador irreversível do homem, afinal, foi onde Deus mais investiu em sua criação! Podemos ver mais faíscas de Deus quando olhamos os homens com um olhar de quem olha para a criatura admirando o Criador.


03 fevereiro 2008

Prece

Dê-me uma biblioteca em profundo silêncio. Dê-me uma neblina espessa na madrugada. Dê-me um ombro. Dê-me um soneto com versos viscerais. Dê-me canários desengaiolados. Dê-me uma caverna com estalactite. Dê-me velas com cheiro de canela. Dê-me as lágrimas das mães do Congo. Dê-me um alvorecer de pescador. Dê-me a tragédia das Óperas. Dê-me o lamento do sax.

Dê-me um córrego de águas claras. Dê-me uma catedral com sinos a dobrar. Dê-me um céu sem lua e sem nuvens. Dê-me uma segunda-feira feriado. Dê-me um mundo enorme, do jeito que eu enxergava quando menino. Dê-me a cadeira de balanço ao lado do ancião. Dê-me a resiliência palestina. Dê-me a gargalhada dos bebês. Dê-me a chance de pedir a bênção do papai e ouvir pela última vez: "Deus te abençoe, meu filho!".

Dê-me uma conversa de calçada na boquinha da noite. Dê-me a colcha de crochet da mulher triste. Dê-me o cheiro de café no bule. Dê-me a Bíblia da adolescência. Dê-me a aula de datilografia com intermináveis asdfg. Dê-me o campinho onde fui estrela de um futebol sem platéia.

Dê-me o gosto ácido das frutas verdes, roubadas com estilingue. Dê-me o ranger da rede que embalou meu sono. Dê-me o espargir do líquido amniótico que precedeu a vida dos meus filhos. Dê-me o assombro de perceber que Alguém me acompanha de perto.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim

By Pavablog

26 janeiro 2008

Não me corte em fatias

Por favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu...
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.

Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor.


Mário Quintana, tradutor e jornalista... acima de tudo, poeta

Thanks to Pavablog

Valha-me meu poeta

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.

Carlos Drummond de Andrade

Thanks to Pavablog

Em meu jardim, eu estarei...

Todo jardim começa com uma história de amor, antes que qualquer árvore seja plantada ou um lago construído é preciso que eles tenham nascido dentro da alma. Quem não planta jardim por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles.

Rubem Alves, teólogo e escritor

Thanks to Pavablog

21 janeiro 2008

Fala poeta: Gabriel Garcia Marques

Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco.

Gabriel García Marquez, escritor colombiano, em Memórias de Minhas Putas Tristes.

14 janeiro 2008

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade


Via Pavablog

22 dezembro 2006

Oração

"Na oração é melhor ter um coração sem palavras, do que palavras sem um coração"
(Mahatma Gandhi).