14 janeiro 2008

Rubem Alves

Era uma manhã fresca e transparente de primavera. Parei o carro na luz vermelha do semáforo. Olhei para o lado – e lá estava ela, menina, dez anos, não mais. O seu rosto era redondo, corado e sorria para mim. “O senhor compra um pacotinho de balas de goma? Faz tempo que o senhor não compra...” Sorri para ela, dei-lhe uma nota de um real e ela me deu o pacotinho de balas. Ela ficou feliz. Aí a luz ficou verde e eu acelerei o carro, não queria que ela percebesse que meus olhos tinham ficado repentinamente úmidos.

Quando eu era menino, lá na roça, havia uma mata fechada. Os grandes, malvados, para me fazer sofrer, diziam que na mata morava um menino como eu. “Quer ver?”, eles perguntavam. E gritavam: “Ô menino!” E da mata vinha uma voz: “Ô menino!” Eu não sabia que era um eco. E acreditava. Nas noites frias, na cama, eu sofria, pensando no menino, sozinho, na mata escura. Onde estaria dormindo? Teria cobertores? Os seus pais, onde estariam? Será que eles o haviam abandonado? É possível que os pais abandonem os filhos?

Sim, é possível. João e Maria, abandonados sozinhos na floresta. Os seus pais os deixaram lá para serem devorados pelas feras. Diz a estória que eles fizeram isso porque já não tinham mais comida para eles mesmos. Será que os pais, por não terem o que comer, abandonam os filhos? Será por isso que as crianças são vistas freqüentemente na floresta vendendo balas de goma? Será que havia balas de goma na cesta que Chapeuzinho Vermelho levava para a avó? Será que a mãe de Chapeuzinho queria que ela fosse devorada pelo lobo? Essa é a única explicação para o fato de que ela, mãe, enviou a menina sozinha numa floresta onde um lobo estava à espera.

Num dos contos de Andersen uma menininha vendia fósforos de noite na rua (se fosse aqui estaria num semáforo), enquanto a neve caía. Mas ninguém comprava. Ninguém estava precisando de fósforos. Por que uma menininha estaria vendendo fósforos numa noite fria? Não deveria estar em casa, com os pais? Talvez não tivesse pais.

Fico a pensar nas razões que teriam levado Andersen a escolher caixas de fósforos como a coisa que a menininha estava a vender, sem que ninguém comprasse. Acho que é porque uma caixa de fósforos simboliza calor. Dentro de uma caixa de fósforos estão, sob a forma de sonhos, um fogão aceso, uma panela de sopa, um quarto aquecido...

Ao pedir que lhe comprassem uma caixa de fósforos numa noite fria a menininha estava pedindo que lhe dessem um lar aquecido. Lar é um lugar quente. Pois, se você não sabe, consulte o Aurélio. E ele vai lhe dizer que o primeiro sentido de “lar” é “o lugar da cozinha onde se acende o fogo.” De manhã a menininha estava morta na neve, com a caixa de fósforos na mão. Fria. Não encontrou um lar.

Um supermercado é uma celebração de abundância. No estacionamento as famílias enchem os porta-malas dos seus carros com coisas boas de se comer. “Graças a Deus!”, eles dizem. Do lado de fora, os famintos, que os guardas não deixam entrar. Se entrassem no estacionamento a celebração seria perturbada. “Dona, me dá uns trocados?” O menino estava do lado de fora. Rosto encostado na grade, o braço esticado para dentro do espaço proibido, na direção da mulher. A mulher tirou um real da bolsa e lhe deu. Mas esse gesto não a tranqüilizou. Queria saber um pouco mais sobre o menino. Puxou prosa. “Para que você quer o dinheiro?” perguntou. “Prá voltar prá onde eu durmo.” “E onde é a sua casa?” “Não vou voltar prá casa. Eu não moro em casa. Eu durmo na rua. Fugi da minha casa por causa do meu pai...”

Em muitas estórias o pai é pintado como um gigante horrendo que devora as crianças. Na estória do “João e o pé de feijão” ele é um ogro que mora longe, muito alto, nas nuvens, onde goza sozinho os prazeres da galinha dos ovos de ouro e da harpa encantada. Mãe e filho, lá embaixo, morrem de fome. Por vezes as crianças estão mais abandonadas com os pais que longe deles. Como aconteceu com a Gata Borralheira. Seu lar estava longe da mãe-madrasta e das irmãs: como uma gata, o borralho do fogão era o único lugar onde encontrava calor.

E comecei a pensar nas crianças que, para comer, fazem ponto nos semáforos, vendendo balas de goma, chocolate bis, biju. Ou distribuindo folhetos... Ah! Os inúteis folhetos que ninguém lê e ninguém quer e que serão amassados e jogados fora. O impulso é fechar o vidro e olhar para a criança com olhar indiferente – como se ela não existisse. Mas eu não agüento. Imagino o sofrimento da criança. Abro o vidro, recebo o papel, agradeço e ainda pergunto o nome. Depois, discretamente, amasso o papel e ponho no lixinho...

E há também os adolescentes que querem limpar o pára-brisa do carro por uma moeda. Já sou amigo da “turma” que trabalha no cruzamento da avenida Brasil com a avenida Orozimbo Maia. Um deles, o Pelé, tem inteligência e humor para ser um “relações públicas”...

Lembro-me de um menino que encontrei no aeroporto de Guarapuava. No seu rosto, mistura de timidez e esperança. “O senhor compra um salgadinho para me ajudar?” Ficamos amigos e depois descobrimos que a mulher para quem ele vendia os salgadinhos o enganava na hora do pagamento...

Um outro, no aeroporto de Viracopos, era engraxate. O pai sofrera um acidente e não podia trabalhar. Tinha de ganhar R$ 20.00. Mas só podia trabalhar enquanto o engraxate adulto, de cadeira cativa, não chegava. Tinha, portanto, de trabalhar rápido. Tivemos um longa conversa sobre a vida que me deixou encantado com o seu caráter e inteligência – ao ponto de ele delicadamente me repreender por um juízo descuidado que emiti, pelo que me desculpei.

E me lembrei das meninas e meninos ainda mais abandonados que nada têm para vender e que, à noitinha, nos semáforos (onde serão suas casas?), pedem uma moedinha...

Houve uma autoridade que determinou que as crianças fossem retiradas da rua e devolvidas aos seus lares. Ela não sabia que, se as crianças estão nas ruas, é porque as ruas são o seu lar. Nos semáforos, de vez em quando, elas encontram olhares amigos.

Os especialistas no assunto já me disseram que não se deve ajudar pessoas nos semáforos, pois isso é incentivar a malandragem e a mendicância. Mas me diga: o que vou dizer àquela criança que me olha e pede: “Compre, por favor...”? Vou lhe dizer que já contribuo para uma instituição legalmente credenciada? Me diga: o que é que eu faço com o olhar dela?

Minhas divagações me fizeram voltar ao Irmãos Karamazóvi, de Dostoiévski. Um dos seus trechos mais pungentes é uma descrição que faz Ivan, ateu, a seu irmão Alioscha, monge, da crueldade de um pai e uma mãe para com a sua filhinha. “Espancavam-na, chicoteavam-na, espisoteavam-na, sem mesmo saber por que o faziam. O pobre corpinho vivia coberto de equimoses. Chegaram depois aos requintes supremos: durante um frio glacial, encerraram-na a noite inteira na privada sob o pretexto de que a pequena não pedia para se levantar à noite (como se um criança de cinco anos, dormindo o seu sono de anjo, pudesse sempre pedir a tempo para sair!).

Como castigo, maculavam-lhe o rosto com os próprios excrementos e a obrigavam a comê-los. E era a mãe que fazia isso – a mãe! Imagina essa criaturinha, incapaz de compreender o que lhe acontecia, e que no frio, na escuridão e no mau cheiro, bate com os punhos minúsculos no peito, e chora lágrimas de sangue, inocentes e mansas, pedindo a ‘Deus que a acuda’. Todo o universo do conhecimento não vale o pranto dessa criança suplicando a ajuda de Deus.”

Num parágrafo mais tranqüilo o starets Zossima medita “Passas por uma criancinha: passas irritado, com más palavras na boca, a alma cheia de cólera; talvez tu próprio não avistasses aquela criança; mas ela te viu, e quem sabe se tua imagem ímpia e feia não se gravou no seu coração indefeso! Talvez o ignores, mas quem sabe se já disseminaste na sua alminha uma semente má que germinará! Meus amigos: pedi a Deus alegria! Sede alegres com as crianças, como os pássaros do céu.”

Quando essas imagens começaram a aparecer na minha imaginação comecei a ouvir (essas músicas que ficam tocando, tocando, na cabeça...) sem que a tivesse chamado aquela canção “Gente humilde”, letra do Vinícius, música do Chico. “Tem certos dias em que eu penso em minha gente e sinto assim todo o meu peito se apertar...” Pelo meio o Vinícius conta da sua comoção ao ver “as casas simples com cadeiras nas calçadas e na fachada escrito em cima que é um lar”. Termina, então, dizendo: “E aí me dá uma tristeza no meu peito feito um despeito de eu não ter como lutar. E eu que não creio peço a Deus por minha gente. É gente humilde. Que vontade de chorar.”

Se fosse hoje o Vinícius não teria vontade de chorar. Ele riria de felicidade ao ver as cadeiras nas calçadas e as fachadas escrito em cima que é um lar... Vontade de chorar ele teria vendo essa multidão de crianças abandonadas, entregues ou à indiferença ou à maldade dos adultos: “E aí me dá uma tristeza no meu peito feito um despeito de eu não saber como lutar...” Só me restam meu inútil sorriso, minhas inúteis palavras, meu inútil Real por um pacotinho de balas de goma...

1. Se dependesse de mim, nas escolas onde se formam os professores haveria cursos de “Como amar uma criança”. E a pergunta decisiva a todos os que pretendessem ser professores seria: “Você ama as crianças?” Essa é a primeira condição. Quem não ama uma criança não tem o direito de ser professor – ainda que tenha todas a teorias na cabeça.

2. “Nosso mais forte elo com a vida é o franco e radiante sorriso de uma criança”: Janusz Korczak. Janusz Korczak foi um educador polonês que morreu com as crianças judias de sua escola. Tendo lhe sido oferecida a possibilidade de liberdade, escolheu entrar com elas na câmara de gás de Treblinka.

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade


Via Pavablog

12 janeiro 2008

Trupekando

Esses aí são a Trupekando, uma galera que curte uma palhaçada, mas tudo com muita seriedade... (até parece!!!)

Stand Up do melhor!

Pepe:



Silas Simplesmente:



O Contador de Piadas:

Blog dos Jovens da VIDE



Este é o blog da galerinha da Vide.

Só gente do bem!

11 janeiro 2008

O computador e o Salmo 23

Meu salmo preferido hoje é o 23:
O computador é o meu pastor, e e-mail não me faltará, sentar-me faz diante de telas coloridas; leva-me para junto de portais cibernéticos. Atualiza minha alma, guia-me pelos provedores em nome do “explorer”.Ainda que eu ande recebendo o vírus da morte, não temerei mal algum porque o “Norton” está comigo, seus “up grade” me consolam.Preparas-me uma sala de bate papo, na presença de meus e-migos, unges-me com o “Instant access” e minha caixa de entrada transborda de e-mails.
Paciência e insônia me seguirão todas as madrugadas que eu estiver teclando, e habitarei com meu computador todas as noites da minha vida.

Com a informatização, vivemos na globalização!
Os computadores tomaram conta de nossas vidas, a internet é o vicio pós-moderno das criaturas humanas, até mesmo os pastores mais “espirituais” como eu, estão viciados no “WWW” é um vicio tão incontrolável que gastamos todas as nossas reservas materiais nele, minha poupança foi “pro brejo”.
Para sustentar este meu novo vício, não bastou um Pentium, comprei um “Pentium cinco” que exigiu um moldem de 56, um wireless, um scanner, uma impressora e um speed, tive de fazer um curso rápido para entender a nomenclatura internética, que é toda em inglês (poderia ser em grego, seria mais fácil para mim!)
Através do i ½ eu fico “teclando” com meus amigos. Atualizando meu blog!
Antes quando estava feliz, eu me deleitava, hoje eu “deleto” quando estou aborrecido.
Antes minha maior preocupação eram os meus pecados, hoje são os meus “vírus”.
Eu gastava horas com minha bíblia, hoje gasto com meu computador.

Jasiel Botelho


Via site Jasiel Botelho

Acho que talvez seja isso...

"Quero fazer os poemas das coisas materiais,
pois imagino que esses hão de seros poemas mais espirituais.
E farei os poemas do meu corpo
E do que há de mortal.
Pois acredito que eles me trarão
Os poemas da alma e da imortalidade.
E à raça humana eu digo:
-Não seja curiosa a respeito de Deus,
pois eu sou curioso sobre todas as coisas
e não sou curioso a respeito de Deus.
Não há palavra capaz de dizer
Quanto eu me sinto em paz
Perante Deus e a morte.
Escuto e vejo Deus em todos os objetos,
Embora de Deus mesmo eu não entenda
Nem um pouquinho...
Ora, quem acha que um milagre alguma coisa demais?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres...
Cada momento de luz ou de treva
É para mim um milagre,
Milagre cada polegada cúbica de espaço,
Cada metro quadrado de superfície
Da terra está cheio de milagres
E cada pedaço do seu interior
Está apinhado de milagres.
O mar é para mim um milagre sem fim:
Os peixes nadando, as pedras,
O movimento das ondas,
Os navios que vão com homens dentro
-existirão milagres mais estranhos?"

Walt Whitmann [via site do Rubem Alves]

Tirado do PavaBlog

08 outubro 2007

Ciclo de Palestras da Missão VIDE

17 setembro 2007

Atos Proféticos ou Vida Profética?

Os teus profetas viram para ti, vaidade e loucura, e não manifestaram a tua maldade, para impedirem o teu cativeiro” Lamentações 2:14

Não pude resistir à verdade deste versículo quando o li e não pude deixar de fazer uma relação direta com nossa igreja, nosso país, nossa vida.

Tenho sido ao longo de alguns anos um ferrenho crítico crédulo de tudo que Deus tem movido através do Brasil e também daquilo que tem se movido com aparência de mover, mas é apenas um rastejar sem Deus.

Ouço tanto falar do avivamento sobre o Brasil, ouço tanto sobre o avivamento sobre nossas igrejas, ouço tantas canções proféticas, já vi e ouvi todo tipo de ato profético. Mas quando olho para o passado vejo a nítida falta de alguma coisa que é comum em tudo aquilo que Deus já fez por aqui na Terra. Sinto falta de vidas proféticas.

Não irei muito longe, falarei da vida de Evan Roberts, o estopim do avivamento no País de Gales. Evan foi aconselhado por William Davies, um diácono da igreja, a nunca perder as reuniões de oração. E assim Evan fez, durante treze anos ele fez isso e orou fielmente por uma visitação poderosa do Espírito Santo.

Mas ao ler a sua oração somos de imediato confrontados, Evan não orava pedindo um mover, Evan não orava pedindo dons, Evan não orava pedindo que a igreja se condoesse e buscasse a Deus. Não. A oração de Evan era: “Dobra-nos Senhor, Dobra-me, Dobra-me Senhor” e foi assim, com este clamor que um país foi mudado através da ação de Deus.

Outra coisa que nos confronta ao ler um relato daquela época é a seguinte frase: “Quando Jesus foi exaltado, todos os homens vieram” e “durante o avivamento de Gales, as pessoas iam às reuniões por causa de Deus, não por causa de uma superestrela”.

Talvez você que me acompanha na leitura até aqui notou algumas coisas bem diferentes quando olhamos para nosso Brasil. O Avivamento não nascerá de atos proféticos, aliás, para bem pouco ou até para nada servem esses atos se não forem acompanhados de uma vida profética.

E uma vida profética é a vida de alguém que pede a Deus que o dobre.

Se quisermos mesmo o avivamento sobre o Brasil precisamos antes desejá-lo em nosso coração. Mas não apenas um desejo, mas um anseio maior do que a vida, um rasgar de coração que mova os céus em atender um filho desesperado por se parecer mais com o Pai.

Porque se o avivamento vier sobre um, virá sobre todos! Não há como resistir ao mover de Deus. Mas quando há real transformação de vida, há transformação de caráter, de atitude, de tudo.

Só uma vida profética trará o céu para nós. Atos isolados são apenas como os profetas hipócritas de Israel, que não revelavam a maldade no coração e guiou o povo de Deus para o cativeiro.

No amor de Cristo,

César Chagas

02 junho 2007

Curva do sucesso

Gráfico hilário da vida cotidiana...


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