08 janeiro 2010

O cara que salvou José

Segue uma abordagem muito interessante do amigo Hugo do blog Metanoiado.

Primeiro vai o poema de Drummond, famosíssimo. Logo em seguida está a interpelação feita pelo Hugo, de muito bom gosto e muito interessante:


JOSÉ
Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?
E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora ?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José !
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !
José, pra onde ?

___________________


Vê agora, José?
A festa não acabara
Nem a luz apagara
Eram os teus olhos, José
Eram os teus olhos
Mas eles se abriram
O povo estava ai
O frio era em ti
Vê agora, José?
Voltou a utopia
E tudo começou
Incoerente é a vida, José
A mulher vai embora
E leva o carinho
O ódio se instala
E o discurso acaba
Olha o bonde da vida ai
Sobe nele
Sem teogonia, José
Teus deuses morreram
Precisa ir no bonde
Sobe nele, José
Sem cavalo preto que foge a galope
A fé é a pé
Marcha, José

hugo


E pra mim, a frase riquíssima: A fé é a pé!
Parabéns cara!

07 janeiro 2010

Não assisto mais Filmes Evangélicos

Segue um texto pra lá de bacana de um grande amigo, o Marcos Botelho do JV na Estrada. Esse cara é uma mente brilhante meio a tanta porcaria do mundo evangélico.


O texto é pra lá de sóbrio e bem colocado.

Estou com o Marcos quanto aos filmes. Raramente me pegarão de novo. Mas o pior mesmo é que já estou usando a mesma lógica para os livros evangélicos... tá difícil de achar coisa boa! Tô lendo Dostoiévski... ê coisa boa!!!

Segue:

______________


Gosto muito de filmes, gosto de sentar e me divertir na frente de uma grande tela com um bom home theater. Dependendo da companhia, posso passar um bom tempo discutindo sobre a visão do diretor, roteiro, etc.

Um tempo atrás algumas pessoas começaram a me falar que tinha uma igreja nos Estados Unidos que estava fazendo filmes de qualidade e que eu deveria assistir. Falei não de cara, pois tenho medo que os evangélicos façam com os filmes o mercado paralelo que fizeram com as músicas.

Até que um dia alguém me emprestou um filme e pela capa pensei: Vamos lá, deve ser bom!

Mas, infelizmente, não foi nada bom. Não pela qualidade do filme, que é razoável, e nem pelas falas, que são fracas, mas pela história que, na essência, não tem a ver com o evangelho, é apenas uma repetição de um roteiro que deu certo lá fora.

O filme é a história de um treinador falido, com um carro que não presta e, que não pode ter filhos, e sei lá mais o que. Um dia ele aceita a proposta de treinar um time de futebol do colégio e tentar a sorte no campeonato importante da região.

Como todo filme, ele encontra muitos obstáculos e gente querendo derrubá-lo. Mas o diferencial é que ele decide evangelizar o time e colocar os princípios evangélicos nos garotos.

Tenho muitos amigos missionários/treinadores que trabalham com esta visão, e sei que esta estratégia é muito boa se for aplicada com discernimento e sabedoria. Pois assim como aí fora os treinadores sempre enfatizam a importância do treino e também da escola, nós, cristãos, colocamos mais uns pontos: Que um atleta completo tem que estar bem fisicamente, mentalmente e espiritualmente.

O que me irrita nos filmes “evangélicos” é que eles pegam exatamente o mesmo roteiro dos outros filmes, mas mudam a carcaça. Da garra, esperança ou sei lá o que para a religião evangélica.

No fim do filme, depois de muita luta e perseguição, pois o treinador colocou disciplinas espirituais nos garotos, eles chegam à final do campeonato em um último jogo emocionante.

E, para o meu desespero, eles ganham o campeonato de um time muito mais forte, ele ganha uma caminhonete novinha animal e, adivinha o quê mais? A esposa dele fica grávida. E os desavisados gritam aleluia!!!

Sei que filmes precisam ter final feliz, mas não é esta a lógica do reino, não foi assim que aconteceu com o mestre. Ele fez tudo certo e foi traído, abandonado e morto.

Podia sim ter um final feliz. Podia ser diferente sim, eles poderiam ter perdido aquele jogo, o treinador ter perdido a cabeça e gritado dentro de seu carro velho para os garotos que não adiantou nada. No outro dia ele indo para a escola veria um estudante que reconciliou com o pai, outro que parou de brigar na rua. Quem sabe os meninos no outro dia treinando bem cedo no campo e falando que a derrota mostrou que o jogo não é tudo e que o que aprenderam vão levar para sempre! Sei lá!

Quando encontramos Cristo não jogamos melhor futebol, nem ganhamos dos que odeiam o evangelho. Aprendemos com o mestre o valor da humildade, do amor, da ética.

Assisto muitos filmes essencialmente cristãos, que me fazem repensar a vida e que exaltam o amor e não a competição, a humildade e não a vitória. Estes eu assisto, mas os filmes denominados “evangélicos”, estes eu não assisto mais.


visita ele aqui ó:

Aquecimento Global - Será?

Segue abaixo uma entrevista muito interessante. Não tenho opinião a emitir, mas vale a leitura:

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"Não existe aquecimento global", diz representante da OMM na América do Sul

Por Carlos Madeiro
Especial para o UOL Ciência e Saúde

Com 40 anos de experiência em estudos do clima no planeta, o meteorologista da Universidade Federal de Alagoas Luiz Carlos Molion apresenta ao mundo o discurso inverso ao apresentado pela maioria dos climatologistas. Representante dos países da América do Sul na Comissão de Climatologia da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Molion assegura que o homem e suas emissões na atmosfera são incapazes de causar um aquecimento global. Ele também diz que há manipulação dos dados da temperatura terrestre e garante: a Terra vai esfriar nos próximos 22 anos.

UOL: Enquanto todos os países discutem formas de reduzir a emissão de gases na atmosfera para conter o aquecimento global, o senhor afirma que a Terra está esfriando. Por quê?

Luiz Carlos Molion: Essas variações não são cíclicas, mas são repetitivas. O certo é que quem comanda o clima global não é o CO2. Pelo contrário! Ele é uma resposta. Isso já foi mostrado por vários experimentos. Se não é o CO2, o que controla o clima? O sol, que é a fonte principal de energia para todo sistema climático. E há um período de 90 anos, aproximadamente, em que ele passa de atividade máxima para mínima. Registros de atividade solar, da época de Galileu, mostram que, por exemplo, o sol esteve em baixa atividade em 1820, no final do século 19 e no inicio do século 20. Agora o sol deve repetir esse pico, passando os próximos 22, 24 anos, com baixa atividade.

UOL: Isso vai diminuir a temperatura da Terra?

Molion: Vai diminuir a radiação que chega e isso vai contribuir para diminuir a temperatura global. Mas tem outro fator interno que vai reduzir o clima global: os oceanos e a grande quantidade de calor armazenada neles. Hoje em dia, existem boias que têm a capacidade de mergulhar até 2.000 metros de profundidade e se deslocar com as correntes. Elas vão registrando temperatura, salinidade, e fazem uma amostragem. Essas boias indicam que os oceanos estão perdendo calor. Como eles constituem 71% da superfície terrestre, claro que têm um papel importante no clima da Terra. O [oceano] Pacífico representa 35% da superfície, e ele tem dado mostras de que está se resfriando desde 1999, 2000. Da última vez que ele ficou frio na região tropical foi entre 1947 e 1976. Portanto, permaneceu 30 anos resfriado.

UOL: Esse resfriamento vai se repetir, então, nos próximos anos?

Molion: Naquela época houve redução de temperatura, e houve a coincidência da segunda Guerra Mundial, quando a globalização começou pra valer. Para produzir, os países tinham que consumir mais petróleo e carvão, e as emissões de carbono se intensificaram. Mas durante 30 anos houve resfriamento e se falava até em uma nova era glacial. Depois, por coincidência, na metade de 1976 o oceano ficou quente e houve um aquecimento da temperatura global. Surgiram então umas pessoas - algumas das que falavam da nova era glacial - que disseram que estava ocorrendo um aquecimento e que o homem era responsável por isso.

UOL: O senhor diz que o Pacífico esfriou, mas as temperaturas médias Terra estão maiores, segundo a maioria dos estudos apresentados.

Molion: Depende de como se mede.

UOL: Mede-se errado hoje?

Molion: Não é um problema de medir, em si, mas as estações estão sendo utilizadas, infelizmente, com um viés de que há aquecimento.

UOL: O senhor está afirmando que há direcionamento?

Molion: Há. Há umas seis semanas, hackers entraram nos computadores da East Anglia, na Inglaterra, que é um braço direto do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática], e eles baixaram mais de mil e-mails. Alguns deles são comprometedores. Manipularam uma série para que, ao invés de mostrar um resfriamento, mostrassem um aquecimento.

UOL: Então o senhor garante existir uma manipulação?

Molion: Se você não quiser usar um termo tão forte, digamos que eles são ajustados para mostrar um aquecimento, que não é verdadeiro.

UOL: Se há tantos dados técnicos, por que essa discussão de aquecimento global? Os governos têm conhecimento disso ou eles também são enganados?

Molion: Essa é a grande dúvida. Na verdade, o aquecimento não é mais um assunto científico, embora alguns cientistas se engajem nisso. Ele passou a ser uma plataforma política e econômica. Da maneira como vejo, reduzir as emissões é reduzir a geração da energia elétrica, que é a base do desenvolvimento em qualquer lugar do mundo. Como existem países que têm a sua matriz calcada nos combustíveis fósseis, não há como diminuir a geração de energia elétrica sem reduzir a produção.

UOL: Isso traria um reflexo maior aos países ricos ou pobres?

Molion: O efeito maior seria aos países em desenvolvimento, certamente. Os desenvolvidos já têm uma estabilidade e podem reduzir marginalmente, por exemplo, melhorando o consumo dos aparelhos elétricos. Mas o aumento populacional vai exigir maior consumo. Se minha visão estiver correta, os paises fora dos trópicos vão sofrer um resfriamento global. E vão ter que consumir mais energia para não morrer de frio. E isso atinge todos os países desenvolvidos.

UOL: O senhor, então, contesta qualquer influência do homem na mudança de temperatura da Terra?

Molion: Os fluxos naturais dos oceanos, polos, vulcões e vegetação somam 200 bilhões de emissões por ano. A incerteza que temos desse número é de 40 bilhões para cima ou para baixo. O homem coloca apenas 6 bilhões, portanto a emissões humanas representam 3%. Se nessa conferência conseguirem reduzir a emissão pela metade, o que são 3 bilhões de toneladas em meio a 200 bilhões?Não vai mudar absolutamente nada no clima.

UOL: O senhor defende, então, que o Brasil não deveria assinar esse novo protocolo?

Molion: Dos quatro do bloco do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), o Brasil é o único que aceita as coisas, que “abana o rabo” para essas questões. A Rússia não está nem aí, a China vai assinar por aparência. No Brasil, a maior parte das nossas emissões vem da queimadas, que significa a destruição das florestas. Tomara que nessa conferência saia alguma coisa boa para reduzir a destruição das florestas.

UOL: Mas a redução de emissões não traria nenhum benefício à humanidade?

Molion: A mídia coloca o CO2 como vilão, como um poluente, e não é. Ele é o gás da vida. Está provado que quando você dobra o CO2, a produção das plantas aumenta. Eu concordo que combustíveis fósseis sejam poluentes. Mas não por conta do CO2, e sim por causa dos outros constituintes, como o enxofre, por exemplo. Quando liberado, ele se combina com a umidade do ar e se transforma em gotícula de ácido sulfúrico e as pessoas inalam isso. Aí vêm os problemas pulmonares.

UOL: Se não há mecanismos capazes de medir a temperatura média da Terra, como o senhor prova que a temperatura está baixando?

Molion: A gente vê o resfriamento com invernos mais frios, geadas mais fortes, tardias e antecipadas. Veja o que aconteceu este ano no Canadá. Eles plantaram em abril, como sempre, e em 10 de junho houve uma geada severa que matou tudo e eles tiveram que replantar. Mas era fim da primavera, inicio de verão, e deveria ser quente. O Brasil sofre a mesma coisa. Em 1947, última vez que passamos por uma situação dessas, a frequência de geadas foi tão grande que acabou com a plantação de café no Paraná.

UOL: E quanto ao derretimento das geleiras?

Molion: Essa afirmação é fantasiosa. Na realidade, o que derrete é o gelo flutuante. E ele não aumenta o nível do mar.

UOL: Mas o mar não está avançando?

Molion: Não está. Há uma foto feita por desbravadores da Austrália em 1841 de uma marca onde estava o nível do mar, e hoje ela está no mesmo nível. Existem os lugares onde o mar avança e outros onde ele retrocede, mas não tem relação com a temperatura global.

UOL: O senhor viu algum avanço com o Protoclo de Kyoto?

Molion: Nenhum. Entre 2002 e 2008, se propunham a reduzir em 5,2% as emissões e até agora as emissões continuam aumentando. Na Europa não houve redução nenhuma. Virou discursos de políticos que querem ser amigos do ambiente e ao mesmo tempo fazer crer que países subdesenvolvidos ou emergentes vão contribuir com um aquecimento. Considero como uma atitude neocolonialista.

UOL: O que a convenção de Copenhague poderia discutir de útil para o meio ambiente?

Molion: Certamente não seriam as emissões. Carbono não controla o clima. O que poderia ser discutido seria: melhorar as condições de prever os eventos, como grandes tempestades, furacões, secas; e buscar produzir adaptações do ser humano a isso, como produções de plantas que se adaptassem ao sertão nordestino, como menor necessidade de água. E com isso, reduzir as desigualdades sociais do mundo.

UOL: O senhor se sente uma voz solitária nesse discurso contra o aquecimento global?

Molion: Aqui no Brasil há algumas, e é crescente o número de pessoas contra o aquecimento global. O que posso dizer é que sou pioneiro. Um problema é que quem não é a favor do aquecimento global sofre retaliações, têm seus projetos reprovados e seus artigos não são aceitos para publicação. E eles [governos] estão prejudicando a Nação, a sociedade, e não a minha pessoa.

Link da notícia

06 janeiro 2010

O não-banquete: a internet e a aparência do diálogo

Meus amigos... deliciem-se com um pequeno trecho de um texto absurdamente maravilhoso e inteligente escrito por meu "amigo" Paulo Brabo.

Por favor, clique no link, vá até a página dele e leia por completo. É muito interessante.

Paulo Brabo! Parabéns! Haja brabeza!



Conceitualmente, a internet provou ter potencial para corrigir de forma definitiva e eficaz aquela antiga deficiência da palavra escrita que os diálogos de Platão tinham sido inventados para corrigir de modo paliativo. Porque na internet, pasme-se, o diálogo é real. Graças à magia de grupos de discussão, tuíteres, mensagens de email, comentários em blogues, wikipédias, janelas de chat e redes de relacionamento, a palavra escrita foi liberta de seus grilhões. O diálogo é permanente. A internet é um livro aberto, e qualquer um pode escrever no miolo e rabiscar nas margens. Qualquer um é livre para adicionar sem intervalo e sem custo novas páginas que corrijam, expliquem, mencionem, satirizem ou anulem as anteriores; qualquer um pode contribuir para deixar o conteúdo mais claro, mais correto, mais atualizado, mais original, mais pessoal ou menos pessoal, mais profundo ou mais simples, mais austero ou mais engraçado.

Mais do que na Biblioteca de Babel de Borges, vivemos no Paraíso de Platão, e tudo que existe é o diálogo. Trata-se de um milagre em muitos sentidos, e de uma maldição em outros. Permita-me falar sobre a parte da maldição.

O problema é que nós seres humanos somos animais estranhos, e o diálogo não é uma arte que saibamos verdadeiramente dominar. Mesmo os mais capazes dentre nós encontram dificuldade na tarefa, e com muito mais frequência do que gostaríamos de admitir temos problemas para entender o que estamos dizendo uns aos outros, ou ainda com que intenção ou com que ênfase.

Para Platão, o lugar para se dialogar, por excelência, era entre amigos reunidos ao redor de uma mesa – de preferência um banquete lubrificado por muito vinho e música ao vivo. As vantagens do banquete cordial são muitas e muito evidentes: amigos se conhecem e saberão entender as provocações mútuas e as alusões a lembranças compartilhadas; amigos conhecem as entonações, os ritmos, os temas, as pausas e as mitologias pessoais uns dos outros. Por estarem juntos na mesma sala, um olhar compassivo pode corrigir uma frase brusca, um meio sorriso pode colorir uma ironia e uma sobrancelha erguida inverter uma idéia. A comida compartilhada os pacificará, a bebida compartilhada os tornará irmãos.


Leia o restante do texto clicando aqui

30 dezembro 2009

Cordel de Natal

Cheguei com atraso, mas ainda vale assistir:

Muito bacana mesmo!!!

28 dezembro 2009

Outro conto de Natal...

Encontrei este texto no MDig... Blog excelente diga-se de passagem.

Texto do bom...

Gaste um tempinho:

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Tiãozinho: Sete anos, mendigo com cinco anos de experiência, experiente em bater pernas pelas ruas com ou sem sapatos, hábil na arte de driblar o tráfego caótico do centro de Joinville e tremendamente criativo.


Vinte e quatro de dezembro. Tiãozinho acordou como sempre às sete da manhã. Hoje queria ficar um momento mais brincando com seus dois irmãos: João de 10 anos e Claudinha de seis. Mas sua madrasta arrastou-o com puxões.

Quando abria a torneira da amarelada pia para lavar o rosto, sentiu como se a orelha estivesse sendo rasgada e arrancada pela raiz. A madrasta achava que a cara suja dava mais pena e que as esmolas seriam maiores.

No trajeto até ao centro da cidade, era obrigado literalmente a correr para acompanhar o passo de uma mulher adulta, robusta e de péssimo caráter. A volta para casa era sempre a pior parte, caminhar seis quilômetros com o corpo moído após uma jornada de catorze horas.

Isabel se encarregava de calcular minuciosamente as arrecadações, e atribuir a cota correspondente à cada um dos filhos; na realidade só Claudinha era sua filha, motivo pelo qual desfrutava de alguns pequenos privilégios. Estabelecido o montante, era fácil estabelecer o castigo por não cumpri-lo.

Na véspera de natal, o horário de sua mendicância estendia-se por várias horas a mais do que o habitual. Isabel também fazia previamente o cálculo das esmolas pelas horas extras.

Enquanto caminhava entre a multidão entrando e saindo de lojas, pensava nos homens fantasiados de vermelho que encontrava à cada passo. Sabia que eram cidadãos comuns contratados para chamar a atenção dos possíveis clientes; mas a existência real de um verdadeiro Papai Noel, significava para Tiãozinho um verdadeiro labirinto.

Não podia compreender a existência de um personagem teoricamente bom e praticamente cruel. Estava convencido de que Papai Noel era um invento dos ricos, para os ricos.

O dia não foi bom; muita chuva e pouca gente generosa. Tiãozinho tinha fome, mas não era possível gastar as moedas da cota estabelecida por Isabel.

Quando conseguia algum superávit com as esmolas, o menino guardava as moedas a mais no bolso esquerdo; as do direito eram para entregá-las à madrasta. Nunca teve muita sobra, o dinheiro que conseguia a mais, mal dava para saciar a fome duas ou três vezes à semana.

Quando anoiteceu, o menino estava esgotado. Não era possível regressar para casa, isso significaria uma consabida surra, ademais o jejum obrigatório. O sistema estabelecido era simples: Isabel contava duas vezes o dinheiro, se estava de acordo a suas expectativas, autorizava o garoto a fuçar as panelas e comer. Se faltavam moedas, castigava-o com uma vara e ordenava que fosse para a cama de barriga vazia. Era preferível vagar por um tempo a mais e tentar a sorte entre o turbilhão enlouquecido no leva e traz de presentes, pacotes, álcool e insensibilidade.

Deteve-se em frente a uma imensa vidraça e contemplou assombrado um senhor gordo e grande que parecia comprar tudo que via pela frente. Pensou que homem precisaria de um caminhão para transportar suas compras até sua casa. Eram tantos os pacotes enfeitados e tantas as notas que o senhor gordo entregava ao caixa, que Tiãozinho mal acreditava no que via. Eram notas com grandes números que o menino só tinha visto na televisão.

Até que o senhor saiu, seguido de vários ajudantes que carregavam tudo o que podiam. Idas e vindas, atividade intensa, ofegavam entre o tumulto. Uma caminhonete repleta de presentes! Teria tantos filhos? A caminhonete se foi.

Tiãozinho ficou absorto e tropeçou numa volumosa caixa: o senhor gordo tinha esquecido um presente. Seria este pacote que tantos sonhos lhe trouxe? Era um presente, mas não tinham lhe presenteado; dizem que Papai Noel não se esquece dos presentes, que os deixa de propósito e a domicílio. Dizem que Papai Noel...

O menino pegou a caixa e correu ao encontro do automóvel, não tinham deixado o presente para ele, e assim não servia. O tráfego lento favorecia, uma quadra e meia de corrida e pronto. O senhor gordo esperava impaciente a mudança de cor do semáforo quando o menino bateu na sua janela. Não prestou atenção pensando que o garoto só queria uma esmola. Tiãozinho parou na frente do automóvel mostrando a caixa que já pesava muito. Então o senhor recebeu o pacote, agradeceu com um rosnado e partiu sem dizer mais nada.

Tiãozinho empreendeu cabisbaixo o caminho para casa. Estava resignado. Não teria presente, não tinha completado a cota de esmola, não teria jantar e as surras não enchem o estômago. Pensou em como desviar-se das "varadas" da madrasta; pensou em seu pai, bêbado como um gambá, falando besteiras; em seus irmãos jantando e dormindo.

De repente alguém se deteve em frente a ele, era um senhor gordo, mas outro. Este usava aquela fantasia vermelha e branca, linda barba, bochecha rosada e um doce olhar. O senhor buscou em seu bolso e depois estendeu a mão sorridente, entregou um pirulito desses que têm chiclete dentro, acariciou a cabeça do menino e desapareceu na escuridão.

Quando Tiãozinho saiu de seu assombro, prosseguiu a caminhada lentamente, despreocupado. Pôs o pirulito no bolso esquerdo e decidiu que o desfrutaria quando os demais dormissem.

Abriu a porta trêmulo e entrou devagar, cabeça baixa. Quando levantou o olhar ficou perplexo; a mesa estava posta, Isabel servia a refeição, papai estava sóbrio, todos compartilhavam. E não teve surra, e tinha chocolate e tinha panetone, até toalha rendada tinha! No canto da cozinha, cinco pequenos pacotes de presentes. Tiãozinho saiu ate o quintal, deu um pulo espetacular e soltou um agudo grito ouvido possivelmente até no polo norte:

- Ele existeeeeeeeeeee...

23 dezembro 2009

Meu orgulho de ser humilde

Salve salve Paulo Brabo!

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Minha mesquinheza não tem limites, mas não é sempre que recorro à custosa lucidez que poderia manter-me consciente deste detalhe.

Terá sido há vinte anos, mas lembro claramente o dia em que diagnostiquei em mim mesmo o mecanismo de congratulação infinita, através do qual me parabenizo incessantemente pela qualidade equilibrada e excelsa da minha posição. Percebi que, quando estava na casa de alguém muito pobre, agradecia em oração silente a Deus o fato de não ser tão pobre quanto aquela pessoa, e de poder dessa forma ser poupado dos pecados e tentações da pobreza; paralelamente, quando estava na casa de um homem mais rico, congratulava-me pelo fato de não ser tão rico quanto ele, e de ser dessa forma poupado dos pecados muito evidentes da sua riqueza.

Quando uma coisa aconteceu logo após a outra fui capaz de enxergar por um instante o mecanismo por trás da cortina, e recuei em absoluto horror diante de mim mesmo. Mas não tenha pena de mim, porque essa espécie de lucidez só dura um momento. Na maior parte do tempo somos precisamente como o fariseu da parábola, que felicitava-se – e diante de Deus! – por não ser pecador como aquele cobrador de impostos. De fato, nos consideramos as mais equilibradas, compensadas e admiráveis das criaturas, e damos constantes tapinhas nas nossas próprias costas a fim de festejar adequadamente esses méritos.

Fazemos isso condenando sem cessar, do alto de nossa posição, as descompensações dos outros. Não me lembro de ter visto esse mecanismo articulado de forma mais brilhante do que nesta tira do genial David Malki !, em que um desprezível protagonista, que somos nós, professa sua fé:

– Qualquer um mais inteligente que eu é um nerd; qualquer um mais burro que eu é um idiota. Qualquer um mais velho que eu é um decrépito; qualquer um mais novo que eu é um guri. Qualquer um menos promíscuo que eu é um puritano; qualquer um mais promíscuo que eu é um puto.

E, enquanto nos julgamos no centro do equilíbrio, somos poupados dos riscos que ocasionaria avançar em qualquer direção. Bendita seja nossa mediocridade, que nos salva a cada minuto da insensatez que seria avançar em direção à grandeza.


18 novembro 2009

Três filmes, várias atrizes, um ator

Estou com a coleção da folha emprestada em minha casa. Então, estou me esbaldando com filmes antigos.

Sou apaixonado por filmes antigos. Gosto da interpretação, gosto do roteiro, gosto dos improvistos, dos cenários. E talvez goste muito pois retratam uma época onde alguns valores são ainda importantes, valores que ainda carrego comigo... como em bravata individual e perdida.

Mas vamos aos filmes.

O primeiro dele é muito famoso. É o berço de muitos romances e esse formato vai ser abordado por mais inúmeras vezes em Holywood: Casablanca! Ator principal Humphrey Bogart, que foi o rei de Holywood naquela época. Contracena com Ingrid Bergman, que também era uma grande atriz já na época.

Usando a temática da guerra, vamos assistir à história de amores secretos e um camarada absolutamente egoísta despertar para o altruísmo.

Casablanca foi um marco tão forte que existem hoje as festas Casablanca, inúmeros salões decorados com o tema e muito mais. Mas não é pra menos, é um grande filme!












O próximo filme é também com Bogart, é o Falcão Maltês ou Relíquia Macabra. É o pai dos filmes Noir! Aqui você vai ver tudo que deu origem ao estilo de detetive que até hoje chama a atenção.

É o lance mais clichê que existe: Detetive durão, leva a vida sozinho, não quer saber de ninguém, tem uma secretária que cuida de tudo pra ele, aparece uma mulher linda e misteriosa e misteriosamente seu parceiro é morto... Bom, só que essa fórmula tão batida agora, foi inventada nesse filme! É muito interessante!

Nesse filme a atriz é Mary Astor. E tem outros personagens que são um barato. Eles também deram origem pra todos esses vilões esquisitões que vemos nos filmes de hoje.




E por último, que assisti ontem: Aventura na Martinica. Mas este Humphrey é surpreendido pela estreiante Lauren Bacall... tão surpreendido que na vida real ele se separa da esposa para se casar com Lauren. E este acaba se tornando um dos primeiros escândalos Holywoodianos... desses que a gente vê na TV todo dia.

Ela também vai lançar a fórmula da mulher independente, forte, cheia de si e de charme! Ela simplesmente rouba o filme.

O filme também tem Walter Brennan. Um ator com mais de 100 filmes em sua filmografia e um desempenho muito bacana no filme.

Olha esse filme é um barato. E de quebra, é adaptação de um livro de Ernest Hemingway. Famosíssimo autor americano.

É isso aí, pra quem gosta é um prato cheio.

17 novembro 2009

A conversão de um diabo

Excelente texto lido hoje no Pavablog:


- Eu o quero! - bradou Jesus - Vejam como ele beija meus pés. Vocês não percebem e não vêem isso?
Era inverno na cidade de Ouro Preto e sob aquele frio que rachava os seus lábios, Jesus seguia a diante e onde ele passava, a boiada ia atrás.

Sobe escadaria, desce ladeira,
Corta esquinas, versando a vida.
O mestre compassava seus passos,
Sorrindo para cada lado,
De cada segundo,
De cada frame vivo,
O mestre valsava vida.

Uma garotinha pára Jesus, e indaga:
- Ei, tio, olha o seu beiço. Está rachado. Usa esse meu restinho de manteiga de cacau...
- Garotinha, eu vou aceitar sim. Meus beiços estão doendo muito...
A tal garotinha nem sabia que estava se entremetendo num diálogo sísmico onde Jesus queria salvar um diabo.
Ela olha para o Sr. Tranca Rua, olha para Jesus e diz:
- Tio, coitado dele. Minha mãe disse que quem olhar para ele, vira estátua de sal. É verdade?
- Não garotícula linda! Ele é boa gente, só está um pouco doente e fraco de tanto carregar o fardo da cidade.
- Fardo tio? O que é isso?
- Fardo é um peso que se coloca em algo ou em alguma pessoa. Além de o nosso amigo diabo ter uma doença na alma ou distúrbio espiritual, ele carrega o desprezo da cidade e nele, direcionam todos os dejetos pertinentes a escória. O fardo dele é pesado, porque ninguém se importa com ele. Todos passam por ele e olham tudo aquilo que eles não querem ser e isso é percebido por ele e automaticamente, isso vira uma identidade dele e nele posta pela sociedade.
O diabo não parava de se derramar diante do mestre, então diz:
- Eu te adoro Jesus, deixa-me ficar aqui, em teus pés, para sempre.
Não demorou muito para o povo devoto, que estava ali presente, se questionar entre si: “Jesus vai salvar o diabo? Ele está ficando louco? A gente não vale mais do que ele? Nós não cumprimos todas as diretrizes?”
Jesus ouvindo os murmúrios dos crentes cerrou os comentários com as seguintes palavras:
- Quem são vocês, além de algozes deste diabo? Quem são vocês para determinar quem eu devo salvar? Já que vocês só acreditam em mim depois que Lucas e os outros escreveram, não leram que eles disseram? “Eu não vim destruir a alma de ninguém”
O silêncio encabulou até as pedras do caminho.
- Todos que vierem a mim, jamais eu dispensarei sem a minha dádiva. Ele me invocou e quem invoca é porque crê em mim e quem crê será salvo. Não irei destruir a alma de quem me busca, ainda mais por capricho de vocês – pontuou Jesus.
Ao proferir essas palavras, Jesus tocou no diabo e ao tocar nele, instantaneamente, o diabo se transformou em anjo.
Todos ficaram estarrecidos e inacreditavelmente, inconformados com a atitude de Jesus. O povo não queria a salvação e a libertação do diabo. Queriam que o diabo se endiabrasse mais e continuasse a receber os demônios da cidade que por hora, se travestia de ódio, nojo, egoísmo e dissimulação e mentira.
Foi aí que o já previsto aconteceu. Botaram Jesus e o diabo-angelicalizado para correr.
Foi um “pega pra capar”.
Os dois saíram correndo ladeira a baixo com uma multidão gritando “queremos salvação elitista” e o “nosso diabo-endiabrado para estrear o lago de fogo. Endiabra ele de novo, Jesus”.
Jesus e o ex-diabo correram tanto até chegarem ao carro de Jesus que estava parado há uns metros do local da confusão. Os dois entraram no carro e foram embora.
Ao chegarem aos limites da cidade, Jesus olha para o ex-diabo e diz:
- Desce!
- Mas Jesus, não posso descer!
- Desce, você precisa ir!
- Mas Jesus, eu quero ficar contigo. Juntos nós podemos anunciar as boas novas e quem sabe, comprar um galpão para reunir o povo e assim podemos criar o nosso padrão, nossa moral, nossa plataforma teológica!
- Você não sabe o que está falando! Se seus projetos forem esses você se tornará mais um daqueles que habitam naquela cidade. Não te livrei desta vida de Tranca Rua ou Demônio da Garoa da Cidade Inabitável para você virar um Diabo Sacro. Vai e anuncie o que eu fiz com você e posso fazer com qualquer um através da minha eterna misericórdia. Apenas faça isso. Sua vida será uma ponte para muitas vidas. Apenas você e você. Vá.
E ele foi.
Passou-se algumas semanas, Jesus retorna a cidade, pára numa banca de jornal e se depara com a manchete:
“O endemoninhado de ouro-pretense”
Ele lê toda a matéria e balbucia:
- Meu Pai que está no céu! Mas nem o articulista se importou em colocar o nome deste pobre homem em seu relato jornalístico. Para esse povo ele sempre será chamado de diabo, mesmo ele deixando de ser. Seria um grande passo se pelo menos o chamassem de ex-endemoninhado.
Na verdade, não importa isso, afinal, nós sabemos o nome dele, não é papai?

Baseado em Marcos 5

13 novembro 2009

Vou morar na propaganda

Eu sei que estou em falta com as postagens aqui... não tenho estado muito a vontade para escrever... mas não demora eu volto.

Enquanto isso... um vídeo muito interessante...