29 fevereiro 2008

Sobre o Céu, Filmes e Saudade

Sabe, talvez o cinema seja uma das artes que mais se aproximam do céu! Afinal, os momentos acabam sendo eternos e você pode revivê-los tantas vezes quanto puder. Assim, o tempo praticamente não existe na telona ou na telinha. Gravados em bits ou em prata está o tempo que já foi, o que é e o que será.

Não consigo desviar esse sentimento de um lugar onde podemos imaginar o que quisermos e ainda assim, este lugar será melhor do que jamais imaginaríamos. Desta forma eu imagino a eternidade como um lugar sem tempo, onde a alegria convive exatamente do lado da saudade.

Aliás, o céu deve ser feito de saudade! Uma saudade que na verdade não tem nada a ver com o que passou. Mas na verdade tem a ver com aquilo que a saudade faz. É como apanhar quando se era criança, no dia doeu muito e quase morremos de raiva. Hoje é um tempo bom onde podemos correr pra lembrar de alguém que tanto nos amava e as varadas ou chineladas já não doem tanto.

A receita é a mesma para amigos de outras épocas e para amores secretos e revelados que ficaram em nosso passado. Hoje é difícil lembrar que foi ruim, sabemos que foi o bastante para que aquilo acabasse, mas hoje, hoje é apenas uma lembrança daquilo que fomos e das milhares de esperança que nutríamos até então.

Assim é o cinema. Esta é a razão porque os filmes sempre terminam quando os casais estão saindo para a lua de mel. Sim, porque ali o tempo pára e fica para nós a tarefa de imaginar a perfeição daquele casal ou como será sua vida dali para frente. Essa é razão pela qual os diretores buscam filmar aquele lance de olhar entre um casal, seja ele velho ou jovem.

Sabe, tudo isso é fórmula usada na saudade! Você recria tudo através dos momentos que valeram à pena. Por isso ficamos tão tocados com um filme, porque lá dentro, existe esta fagulha, esse não sei o quê que se conecta com a cena do filme.

É quase morrer de solidão numa ilha com Tom Hanks em Náufrago, como quase morremos naquela noite que ninguém ligou.

É sentir-se completo ao assistir “Alguém tem que ceder” e lembrar que seu desejo de velhice é descobrir ou redescobrir o amor como nunca.

É gritar por dentro “Oh Captain, My Captain” com cada aluno da Sociedade dos Poetas Mortos porque o poeta que vive dentro nunca desejou ser um poeta morto.

É dar um beijo na mocinha.

É salvar os amigos.

É ver o trem ou navio partir da estação ou cais.

É sentir o vento que bate no rosto do ator, que aliás, vive uma mentira. Mas que talvez, seja a verdade mais profunda que já sentimos.

Por isso, quem não gosta muito de filme, não deve pensar muito no céu. Porque o céu é esse lugar pra onde se escapa quando tudo vai mal. E é pra lá que rumaremos todos.

Então o mal não importará mais, é a fórmula da saudade.



28/02/2008 - 00:26

Um comentário:

Pedro disse...

ê amigo, quase chorei lendo seu texto, hehehehe
Realmente, espero que o céu vá mais além da saudade e chegue ao reencontro. O que seria da saudade sem um reencontro? Nada, se perderia no tempo...
abracao