07 março 2008

Profissão: Investidor


Sem sair de casa, aplicador dedicado já consegue substituir salário por renda obtida no mercado financeiro


Que atire a primeira pedra quem nunca pensou em demitir o chefe, investir as economias e virar patrão de si próprio. Melhor ainda se não precisar empatar capital para abrir uma empresa, se não tiver que procurar clientes, ou se comprometer em pagar salários no final do mês.

Para alguns, esse sonho virou realidade. E não precisaram nem ao menos se afastar do conforto de suas casas, de preferência longe da selva urbana de São Paulo e do Rio de Janeiro. Os investidores profissionais trabalham onde estiverem.

Há algum tempo, eles pertenciam a uma elite à qual poucos tinham acesso. Hoje, operar na Bolsa está ao alcance de qualquer pessoa. Basta ter um computador ligado à internet, uma conta no homebroker de uma corretora, algum talento, e uma parte do patrimônio acumulado de preferência aquela que não fará falta em caso de perda para arriscar.

É preciso também algumas horas de dedicação. Na realidade, muitas horas, segundo investidores que conseguiram fazer dos investimentos o seu ganha pão. A disponibilidade de tempo é fundamental para ler e interpretar notícias, analisar balanços, estudar gráficos, fazer muitas contas e tentar adivinhar o rumo que os investidores concorrentes vão seguir nas próximas horas.

Mas quanto capital próprio um investidor precisa ter acumulado para declarar a sua independência e viver de seus investimentos? Nas contas do economista José Carlos Luxo, do Laboratório de Finanças da FEA-USP, quem quiser mesmo esquecer qualquer tipo de trabalho e ganhar R$ 5.000 mensais sem risco teria hoje de ter R$ 1 milhão. Com esse patrimônio, pode levar o rendimento de 0,5% ao mês. "É o que os fundos de DI e renda fixa vão render no futuro", diz.

Mesmo para quem suporta assumir um risco maior, Luxo não recomenda investir mais de 50% em renda variável, deixando o restante na renda fixa para amortecer eventuais perdas na Bolsa. "O ideal seria poder pagar com o juro da renda fixa os gastos fixos, como condomínio e alimentação", diz. Segundo Luxo, com R$ 400 mil o investidor que quiser retirar R$ 5.000 mensais poderia também aplicar R$ 200 mil na Bolsa, diversificando bem os papéis escolhidos e adotando mecanismos de hedge (proteção) para travar eventuais perdas.

De sua casa no alto de Petrópolis (região serrana a 60 km do Rio), o investidor profissional Heitor Oliveira, 48, conta que costuma ficar plugado desde cedo na internet para fazer "day trades" (comprar e vender ações no mesmo dia) e acompanhar o noticiário de política, economia e das empresas listadas na Bolsa.

"Meu expediente começa no domingo à noite, quando abrem as Bolsas asiáticas. Me adaptei tanto que hoje é o meu ganha pão. Trabalho de chinelo, camiseta e bermuda. Não quero outro tipo de vida, apesar de ter que ficar quase o dia inteiro colado no PC homebroker, sites e jornais on-line. "Todo dia é dia de trabalho e todo dia também é de zoeira. O meu Carnaval só começou na Quarta-Feira de Cinzas (quando o mercado se acalmou). Estava desesperado no Carnaval (quando as Bolsas internacionais desabaram)", afirma Oliveira.

"Quem trabalha por conta própria costuma dedicar mais horas do que os assalariados. Eu não tenho hora para começar a trabalhar, mas desde a hora que acordo até dormir, estou lendo, analisando o mercado. Posso estar na beira da piscina tomando minha caipirinha, mas continuo pensando", conta Jonas Fagá, 39, outro investidor profissional do mercado.

Da piscina de seu sítio em Itapira (176 km de SP), Fagá concorda que não ter patrão, fazer seus próprios horários e ser um profissional independente tem muito apelo, especialmente para investidores mais jovens que ganharam dinheiro fácil na Bolsa nos últimos anos e nunca viram uma crise séria nos mercados.

"Essa coisa de não ter patrão, de ser independente, tem muito apelo na nossa época. Está cada vez mais difícil obter um bom emprego. Buscar isso é válido, mas não existe almoço grátis. A coisa é vendida como se fosse fácil. Não é", alerta.

Fagá largou a faculdade de comunicação para montar uma agência de propaganda, onde trabalhou durante dez anos. Saiu para abrir uma gravadora. Tentou ser assalariado numa empresa de processamento de dados, mas não se adaptou à política corporativa. "Chegava à empresa e as pessoas falavam: ‘Se você for bom, vai crescer’. Vi que não bastava ser bom. Como não sou muito bom no jogo (político corporativo), comecei a mexer com a Bolsa."

Com seus investimentos, Fagá consegue hoje manter um padrão de vida confortável no sítio em que mora com a mulher e dois filhos pequenos com custos fixos de mais de R$ 12 mil mensais mesmo em períodos de baixa na Bolsa ou quando os negócios não vão tão bem. "Dá para ter lucro o tempo todo, desde que você se prepare para isso. Hoje consigo me dedicar entre quatro e cinco horas ao mercado", afirma.

Ele diz que quem entra nessa vida tem sempre de passar por um processo violento de aprendizado, que envolve,

na maioria das vezes, assumir perdas.

Sua estréia na Bolsa ocorreu em 1997, pouco antes da crise asiática, que emendou com a crise russa e depois com a desvalorização do real. Ele amargou perdas com um fundo de investimento que só foi recuperar em 2000. "Atravessei o inferno, mas fui estudar o que tinha acontecido e aprendi a diversificar investimentos. Claro que teria ganhado mais no DI, mas não teria me tornado um profissional."

Oliveira, de Petrópolis, começou a se interessar pela Bolsa participando em 2005 do Folha Invest em Ação, game da Folha em que os jogadores investem dinheiro virtual. Deixou o trabalho assalariado em uma empresa de peças para aviões e tentou tocar por conta própria uma confecção que havia montado. Acabou preferindo investir em ações cerca de

R$ 50 mil que tinha guardado, sempre comprando ações na baixa e vendendo na alta.

"Quando você chega aos 40 anos ou mesmo antes disso, o mercado de trabalho está morto para você. Todas as portas se fecham quando você está no melhor de sua capacidade intelectual. Não quero mais ter ou ser empregado, já estive dos dois lados e assim acho que é bem melhor. Meu único sócio é o Bradesco (a corretora). O problema é se faltar luz ou o site sair do ar", diz.

Oliveira afirma que consegue hoje levantar dinheiro suficiente para ter uma vida confortável, mas modesta, na região serrana do Rio. "Sem dúvida, dá para tirar mais do que se eu tivesse empregado como um administrador com 10 a 15 anos de experiência, que leva hoje entre R$ 4.000 e R$ 5.000 mensais", calcula.

Para dar certo, esses profissionais independentes gastam tempo e talento que poderiam ser mais bem remunerados por um banco de investimento ou uma corretora, que negociam volumes consideráveis de recursos. "Sei que poderia ganhar mais, mas prefiro trabalhar com o meu dinheiro. Uma coisa é perder o seu dinheiro, outra é arriscar o dos outros", diz Fagá.

Para Carmelina Nickel, consultora de Recursos Humanos da DBM, empresa de recolocação profissional, a atuação solitária de investidores independentes tem a desvantagem de privar a pessoa de relacionamentos gratificantes com colegas de trabalho, assim como do amadurecimento com a interação com superiores e subordinados. Também impede a pessoa de batalhar para exercer uma carreira pela qual tem vocação.

"Alguns têm um talento enorme para investir na Bolsa, mas preferem não entrar num mercado de trabalho no qual acham que serão massacrados. Outros decidem que não vão ter a vida que o pai teve. Se tem talento, vai trabalhar com isso ou faz da operação na Bolsa uma atividade paralela. O que não pode é virar uma fuga. Vai ser mais uma pessoa fazendo um bico", diz.

"Sou contra a busca (de alguns investidores) pela vadiagem. A idéia da aposentadoria precoce também é outra falácia. São pessoas que associam o trabalho com sofrimento. A saída é procurar algo que lhe dá prazer", afirma Fagá.


por TONI SCIARRETTA (Folha de São Paulo)

Nenhum comentário: